A crise alimentar mundial
- DRCA

- 5 de jul. de 2022
- 4 min de leitura

Por João Abel de Freitas - Membro da Ordem dos Economistas nº 11400
1.A fome no mundo vem a alastrar-se desde há 6 anos. Quase um terço da Humanidade, ou seja, cerca de 2.4 mil milhões de pessoas, encontra-se em insegurança alimentar.
A população em risco está distribuída tanto pelo hemisfério Norte, como pelo hemisfério Sul e até apanha 10% da população europeia.
A Covid19 expôs, com toda a crueza, as grandes fragilidades da interdependência entre os países na área agrícola e alimentar, aliás como, em toda a economia, com relevo para as dificuldades acrescidas de funcionamento dos circuitos de abastecimento, geradas por um processo de globalização, completamente desregulado e anarquizante.
No mundo, poucos são os países, com dimensão, produtores de matérias-primas agrícolas. China, EUA, Brasil, Índia e Rússia apresentam uma forte concentração da produção mundial.
Tomando como paradigma o Trigo, um dos bens alimentares mais importantes, temos para uma produção mundial de 749 467 531 toneladas (safra de 2020/2021), os cinco maiores países a deterem 52.3% do global, sendo a China, o maior produtor com 131 696 392 (17.6%), Índia 93 500 000 (12.5%), Rússia 73 294 568 (9.8%), EUA 62 859 050 (8.4%) e Canadá 30 486 700 (4.0%).
No escalão de 20 a 30 milhões de toneladas/ano, mais 6 países com a França à cabeça (29 504 454 - 3.9%), a Ucrânia, em sétimo lugar do mundo, (26 098 830 - 3.5% do total mundial), sendo a Turquia, o último do grupo, com 20.6 milhões de toneladas de produção (2.7%).
Estes dados (https://www.atlasbig.com) mostram a elevada concentração num número reduzido de países pois os 11+ realizam 72.2% da produção global de trigo.
Para além desta concentração da produção, como o caso do trigo revela, regista-se ainda uma tendência para a redução do número de variedades de espécies cultivadas (tipo clones). É o que está a acontecer com a banana. Tentou-se apurar a espécie mais produtiva e isso trouxe problemas. O processo tornou-se vulnerável a doenças específicas. Por outro lado, contrapõem os especialistas que sistemas sustentados em maior variedade oferecem melhor resistência. Mas a produtividade exige. E a acumulação financeira, o lucro, faz correr riscos. Vem o fungo, não importa, muda-se de produção. O negócio à frente!!
Uma outra série de factores, como as catástrofes naturais, tem vindo a afectar o sistema agroalimentar. Por exemplo, na última colheita, a produção de trigo na Índia sofreu uma quebra de 20%, devido a vagas de calor. Os produtores estão indignados, pois, sendo o Governo quem adquire a maior parte estabeleceu um preço mínimo abaixo do mercado, reduzindo as expectativas de rendimento e, posteriormente, condicionou a exportação. Neste aspecto, a Índia foi acompanhada por uma vintena de outros países. Tudo isto são medidas que perturbam o funcionamento dos circuitos dos bens alimentares.
Uma crise mundial ou duas numa?
2. Nos últimos 15 anos, esta é a 3ª crise alimentar. De acordo com os especialistas e estudos FAO, as razões de fundo da crise continuam as mesmas. Problemas de estrutura da organização do sector na área da produção, ligados a uma forte concentração do comércio mundial na mão de quatro grandes grupos multinacionais que controlam entre 80 e 90% do comércio mundial de cereais, cujos nomes são bem conhecidos, Archer Daniels Midland, Bunge, Cargill e Louis Dreyfus. Em termos de países, cinco também controlam 66,5% da exportação mundial de trigo (Rússia, EUA, Canadá, França e Ucrânia).
Face a estes dados é de apontar, na presente fase, para a existência de duas crises que, de algum modo, se sobrepõem. A de natureza estrutural que tende a replicar-se, enquanto não forem tomadas as políticas de fundo para remover o tipo de organização sectorial existente, o que oferece resistências por parte das quatro multinacionais que lhes permitem uma significativa margem de especulação e uma outra crise associada no presente a um aumento continuado de preços que havia começado dois anos antes da guerra da Rússia-Ucrânia. Assinale-se que, em 2021, os preços internacionais dos bens alimentares registaram um aumento de 30%.
A configuração da crise actual
Apesar das perturbações que a invasão da Ucrânia pela Rússia provocou no sistema alimentar mundial e noutros domínios da economia, convém ser isento e não apontar a guerra como a grande causadora da crise alimentar.
Como se viu, o sistema alimentar, devido à sua composição produtiva e comercial tem tendência para gerar especulação de mercado e, consequentemente, crises. Aliás, várias entidades internacionais, como a Oxfam, apontam esta situação estrutural como a causa mais importante da miséria e da fome no planeta.
A guerra em nada contribuiu, assim, para o modelo de organização do sector. Segundo, a outra face da crise - a subida vertiginosa de preços - também já se tinha declarado antes.
É evidente que a guerra trouxe perturbações ao sistema, mas não é a raiz da crise alimentar, nem tem a dimensão que os políticos do Ocidente lhe estão a atribuir, mesmo juntando os impactos da Rússia e Ucrânia, sendo evidente pela dimensão que os impactos da Rússia na comercialização mundial são bem maiores que os da Ucrânia.
Situando a questão
A Ucrânia contribui para a produção mundial, em média, com 3.5% da produção de trigo e 9.4% das exportações mundiais. A posição no comércio é relativamente mais significativa pois os grandes produtores como a China e a Índia exportam pouco.
A Federação Russa produz, em média, 9.8% e é o maior exportador mundial com uma quota de 16.4%.
Os dois países por razões diferentes têm hoje problemas na distribuição comercial. A Rússia pelas sanções o que coloca problemas de pagamentos e entregas e a Ucrânia na não expedição pelo mar negro. Sob este aspecto, diz Jonatham Bentham, analista de defesa marítima do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, a Ucrânia “defendeu o seu litoral com minas e navios estrategicamente afundados”, acrescentando: “mesmo que a guerra termine amanhã, pode levar meses ou anos para tornar o Mar Negro seguro”.
Sem dúvida. Há países afectados pelas dificuldades de acesso ao trigo de origem ucraniana, casos do Líbano, entre outros, onde a dependência é de 80% e, muitos mais ao trigo da Rússia, como o Egipto.
Mas atenção a falta de acesso pelo Mar Negro ao Trigo ucraniano deve-se principalmente à inoperacionalidade provocada pela Ucrânia. Dir-me-ão, em defesa militar!!! Mas era preciso ter previsto as consequências.
Concluindo, anda-se a especular politicamente com a crise alimentar mundial proveniente da guerra, o que não tem fundamentação técnica. As crises já estavam em curso por uma oferta desregulada e pela subida de preços antes da guerra, decorrente de especulação e falhas de mercado.





Comentários