A economia a crescer, as famílias a empobrecer
- DRCA

- 23 de fev. de 2023
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Por Jorge Fonseca de Almeida - Membro da Ordem dos Economistas nº 1083
Portugal, tal como grande parte do chamado mundo ocidental, enfrenta hoje o paradoxo de ter uma economia a crescer, embora ligeiramente, mas, em simultâneo, ter a maioria da sua população a empobrecer de forma muito significativa. Este é o resultado assimétrico quer da inflação quer das medidas de combate à inflação adotadas.
O governo lança foguetes, enche o peito de orgulho, das taxas de crescimento do PIB sem sequer pestanejar com o empobrecimento generalizado da população. Sentado sobre o maior pacote de financiamento público de sempre, a bazuca / PRR, Costa e os seus ministros lançam programas atrás de programas sem conseguir travar a drástica redução do poder de compra da maioria das famílias.
Diz-se agora que a inflação está a diminuir. Que significa esta afirmação? Que os preços estão a diminuir e a voltar ao que eram? Nada disso. Quer dizer que os preços continuam a aumentar a grande ritmo mas a uma velocidade ligeiramente menor. E, acima de tudo, quer dizer que a inflação continuará superior ao aumento dos salários e rendimentos. Quer dizer que continuaremos a empobrecer.
Continuar a empobrecer é motivo de foguetes, alegria e otimismo? Só para um sádico que se compraz com o sofrimento alheio.
Qual o motivo deste duplo paradoxo: aumento da inflação empobrecimento, combate à inflação e também empobrecimento. O empobrecimento causado pela inflação radica no aumento dos ordenados e rendimentos abaixo da inflação. Se estes aumentos fossem iguais ou superiores à inflação não se daria qualquer perda de poder de compra.
Por outro lado o combate à inflação tem sido feito através da subida das taxas de juro, o que por sua vez leva a um empobrecimento daqueles que têm empréstimos à habitação ou pagam renda de casa.
Outros caminhos existem então para enfrentar a inflação? Certamente. Dois exemplos: Primeiro: o ajuste automático dos salários e pensões na mesma medida da taxa de inflação, como foi já utilizado com sucesso noutros surtos inflacionistas. Segundo: fixação de preços, como fez o Presidente Nixon nos anos 70 do século passado.
A política de Costa/Medina de subidas salariais abaixo dos níveis de inflação acompanhada pela passividade perante as subidas das taxas de juro é desastrosa para o poder de compra das famílias e para a balança comercial do nosso país, já que paga mais pelo que importa e recebe menos pelo que exporta.
Em 2022 tivemos o maior deficit comercial desde que há registo. Totalmente insustentável. Importamos inflação e não queremos passa-la nas exportações (porque não subimos os salários). A continuar neste caminho teremos em breve nova intervenção externa (Troika, BCE ou FMI ou os três). O PS tem sido historicamente especialista em conduzir o país a impasses que propiciam estas intervenções.
Com o empobrecimento a aumentar e os preços a subir não admira então que a coesão social esteja a diminuir e a contestação social a aumentar significativamente. Muitos setores entraram já em greve, outros se preparam para o fazer.
Para o próximo dia 25 de fevereiro está marcada uma grande manifestação sob o mote de por uma "Vida Justa". Um movimento que nasce nas comunidades e bairros mais afetados pela perda de poder de compra mas que tem vindo a ganhar muitos e diversificados apoios.
Vai sendo tempo do governo alterar as suas políticas laborais e sociais e ouvir, pelo menos os ecos, dos portugueses.




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