A Inflação veio para ficar
- DRCA

- 5 de jul. de 2022
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Por Jorge Fonseca de Almeida - Membro da Ordem dos Economistas nº 1083
A inflação está de volta. Para ficar. Corroendo os rendimentos do trabalho e as prestações sociais, afastando do mercado as empresas mais endividadas que forem incapazes de suportar os crescentes juros da dívida, anunciando uma nova austeridade, que desta vez será gerida, como aqui previmos antes das eleições, pelo Partido Socialista.
Mas a inflação tem duas faces. Para as empresas, se for bem gerida, isto é se conseguirem passar os aumentos de custos para os clientes, pode significar uma diminuição dos rácios de endividamento. Para o país se a par dos aumentos das receitas provenientes dos impostos não se aumentar as correspondentemente as despesas, nomeadamente os salários da função pública, como parece ser a opção do governo, poderá significar a redução do deficit e do peso da dívida no Produto Interno Bruto.
Os Bancos poderão beneficiar com taxas de juro mais altas que permitem maiores margens financeiras, libertando-se da dependência das comissões como fonte de receita. Por outro lado a inflação fará encolher o stock de crédito, nomeadamente reduzir o peso do mais problemático. No entanto para poder aproveitar esta oportunidade será necessário reforçar capitais. Terão capacidade para o fazer?
Naturalmente que estas "vantagens" são obtidas à custa de uma grande diminuição do poder de compra das populações e da degradação ainda maior dos serviços públicos essenciais, como a saúde, a educação e a segurança social.
Para a grande maioria dos portugueses, os que não conseguirão aumentar o seu rendimento na mesma proporção da inflação, significa austeridade, apertar o cinto, maior pobreza e emigração.
Regressão antigas palavras de ordem como "O custo de vida aumenta, o Povo não aguenta" que, provavelmente, não serão escutadas pelos decisores políticos mas que já estão a desencadear forte reação laboral com greves e manifestações em vários países, incluindo Portugal. Olhe-se para o Reino Unido.
O Banco Central Europeu tem sido anormalmente lento a reagir e, com isso, tem deixado incontrolados os aumentos inflacionistas. E quanto pior a doença (inflação) mais custosa e dolorosa será a cura.
Que pode fazer Portugal para proteger os rendimentos dos portugueses e o nível de emprego? Por um lado apostar numa economia mais fechada, menos dependente dos mercados internacionais, em termos de energia, de produtos alimentares e de outros produtos essenciais. Por outro lado promover o aumento da produtividade aumentando os salários, para que as empresas não continuem a sobreviver através dos baixos níveis salariais evitando, dessa forma, o aumento da competitividade através do único meio saudável, isto é através do investimento na mecanização e da digitalização da produção. Haverá coragem política para avançar por esta via?




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