A quarentena afundada
- DRCA

- 1 de jun. de 2020
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Atualizado: 5 de ago. de 2020

Por Pedro Almeida Jorge - Membro da Ordem dos Economistas nº 15846
Os tempos atribulados que vivemos enquanto indivíduos e enquanto comunidade colocam à prova o sentido de responsabilidade e capacidade de decisão de cada um de nós, cidadãos, e de alguns de nós, dirigentes governamentais, associativos ou empresariais.Na presente situação, somos confrontados com um elevado grau de incerteza em diversos âmbitos, incerteza que, como tal, implica a possibilidade de erros de julgamento, alguns dos quais potencialmente devastadores.
A cada dia que passa, vai-se exacerbando na consciência dos decisores, na opinião pública e na própria realidade o trade-off [compromisso, alternativa excludente] entre as decisões relativas à contenção dos efeitos sanitários da pandemia que enfrentamos e as decisões relativas à reposição da “normalidade” civilizacional que urge recuperar. Por outras palavras, o trade-off entre os efeitos da doença e os efeitos da “cura”.
Certamente não me compete a mim no presente artigo sugerir qual o procedimento a adotar. Tenho as minhas convicções, tal como todos as temos, mas este não é o meio adequado para as fazer ouvir. O que desejo neste artigo é, enquanto economista,chamar a atenção para (mais) uma contribuição da ciência económica que assume extrema relevância não só para as nossas decisões do dia-a-dia, mas também, e em especial, para as delicadas escolhas que agora enfrentamos.
O fenómeno a que desejo aludir tem, felizmente, vindo a dissipar-se nas recentes semanas, fruto, em grande medida, do aparente controlo da situação epidemiológica do País, bem como do também aparente (mas cada vez mais certo) descontrolo da sua situação económica, aos quais se tem juntado a saturação dos portugueses face às medidas de confinamento decretadas e uma atitude algo mais “permissiva” da parte das principais figuras de Estado.
Assim, à medida que o foco do discurso público tem passado a ser o de “trazer as pessoas de volta ao consumo”, temos deixado de ouvir tão frequentemente o argumento de “ficar em casa para não desperdiçar os esforços feitos no passado”. É este último argumento que, a meu ver, poderá representar o fenómeno que aqui desejo abordar - a “falácia do custo afundado”.
A “falácia do custo afundado” consiste em prosseguirmos um projeto ou um plano de ação só porque já nele investimos recursos, tempo ou simplesmente esforços. Porque é que isto se trata de uma decisão falaciosa? Porque o importante num plano de ação não deve ser o esforço incorrido no passado, o qual já não pode ser recuperado, mas sim saber se, perante as presentes alternativas, esse deve mesmo ser o caminho a tomar.
Como referem Antonioni e Flynn em Economia para Totós, «Os economistas denominam os custos previamente suportados – que, consequentemente, não devem afetar tomadas de decisão atuais ou futuras – como custos afundados. Racionalmente, devem considerar-se apenas os custos e benefícios marginais futuros e potenciais das suas opções presentes.»
Traduzindo do “economês”, imagine que, nestes tempos de confinamento, vai a um restaurante take-away e decidi trazer uma refeição que nunca provou, mas que lhe apetece experimentar. Quando chega a casa, começa a comer e apercebe-se que este prato inclui um ingrediente ao qual é alérgico. Facilmente se entende que uma pessoa “economicamente racional” não vai continuar a comer algo a que é alérgica só porque “já ali gastou o dinheiro”. Eis portanto em jogo o conceito fundamental de custo afundado: o dinheiro gasto já nunca poderá ser recuperado, quer continue ou não a comer. Visto que esse custo se vai verificar em qualquer das alternativas, o mesmo não deve ser considerado na escolha entre elas.
Isso não invalida, obviamente, que esta má experiência possa servir de lição na próxima vez que decidir recorrer a um take-away. Como referem Heyne, Boettke e Prychitko em The Economic Way of Thinking, «do ponto de vista do economista, um custo afundado é apenas um facto histórico, pois não representa qualquer oportunidade de escolha futura. Pode ser um motivo de amargo arrependimento, mas já não é um custo em qualquer sentido relevante para a análise económica de decisões presentes. É um pedaço de informação, uma lição de vida. Não nos interpretem mal – certamente que a lição não é irrelevante; apenas o custo. A questão é: o que é que se deve fazer agora?»
Para dar outro exemplo do quotidiano, citemos aquelas situações em que o metro ou o comboio se encontram temporariamente parados, sem que haja uma expectativa razoável sobre quando poderão arrancar. É verdade que, estando à espera já há algum tempo, temos a tendência para nos deixarmos ficar, “agora que já aqui estivemos este tempo todo”.
Porém, facilmente se percebe que tal lógica não é economicamente razoável: o importante a ter em conta neste caso é o tempo que ainda é provável termos de esperar; não o facto de já termos esperado muito tempo. Claro que o facto de já termos esperado muito tempo poderá ser relevante para a nossa estimativa de quanto ainda irá demorar a situação; mas essa espera anterior em nada deverá influenciar-nos “só porque” já tivemos de passar por ela. Assim, como referiu o Prémio Nobel James M. Buchananno seu muito recomendável ensaio Cost and Choice: «uma vez que a decisão está tomada, este custo é irrelevante, exceto no que respeita à possibilidade de tal experiência alterar o julgamento de alternativas futuras.»
Desta forma, percebe-se que, mesmo não se presumindo autorizado a concluir sobre os prós e os contras de um desconfinamento mais drástico ou mais suave (algo que não desejo aqui discutir), o economista tem ainda assim um apelo legítimo a fazer aos decisores competentes: que não se considere que o esforço de confinamento já efetuado vale, enquanto tal, como justificação para as decisões de desconfinamento com que agora nos deparamos. O que deve ser tido em conta são os prós e os contras das alternativas presentes e não os esforços realizados no passado. É possível que o período de quarentena nos tenha trazido ensinamentos valiosos que agora devemos, sem dúvida, ter em conta. E é também certo que a quarentena nos trouxe implicações económicas, sociais e sanitárias com que teremos de lidar durante anos. Porém, à semelhança do custo que representa, a quarentena está afundada.
O raciocínio precedente é o contributo do economista. Todavia, será ingénuo o economista que não considerar também a viabilidade política das suas sugestões, tendo em conta nomeadamente a envolvente social e institucional em que as mesmas serão implementadas. É importante que as considere; ainda que deixe – e deva deixar - bem clara a sua posição estritamente técnica.
Ora, numa envolvente democrática em que, provavelmente, muitos dos cidadãos não estão conscientes do raciocínio que acima expusemos, uma decisão política que, considerando afundados os esforços da quarentena, rompesse drasticamente com as medidas anteriormente implementadas poderia ter consequências políticas bastante substanciais não só para os decisores em causa mas também para o regime político como um todo. É por isso que, com vista a evitar a tomada de decisões substancialmente danosas, ainda que politicamente mais vantajosas, é importante promovermos: i) a literacia económica dos cidadãos, em especial dos mais gravemente afetados por todo o período de quarentena; ii) a honestidade e integridade dos dirigentes políticos na assunção das respetivas responsabilidades e na coerência intertemporal do respetivo discurso e estratégia; iii) uma atitude criticamente escrutinadora mas não ostensivamente estigmatizante ou irrealista da parte das forças políticas da oposição, a fim de que o jogo político não se “afunile” em direção a decisões politicamente vantajosas que se revelem coletivamente danosas.





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