A verdade dos bancos
- DRCA

- 8 de abr. de 2020
- 3 min de leitura
Atualizado: 28 de abr. de 2020

Por Mário de Jesus - Membro da Ordem dos Economistas nº 3122
É verdade que o país ajudou os bancos na crise de 2008 permitindo a sua sobrevivência. Tal ajuda cifrou-se numa despesa pública, segundo o Tribunal de Contas, de 17,6 mil milhões de euros no período compreendido entre 2008 e 2018, o equivalente a 8,3% do PIB do ano de 2019. Não é menos verdade que esta ajuda destinou-se a evitar o colapso do sistema financeiro e, consequentemente, a salvaguardar o interesse dos depositantes, tendo o Estado recuperado parte desta despesa por parte dos bancos que reembolsaram o erário público das ajudas financeiras obtidas, como foi o caso do BPI ou do Millennium BCP.
Mostra-se ser verdade que os bancos assumem publicamente o seu compromisso em ajudar a economia, as empresas e as familias quer através das moratórias do crédito em curso, dos apoios públicos ou de soluções de financiamento próprias retribuindo assim ao país o apoio recebido. Exemplo disto são as seis linhas de crédito disponibilizadas pelo Estado e já subscritas pelos bancos, a operacionalizar através das Sociedades de Garantia Mútua, destinadas a financiar diversos sectores da economia como o turismo, indústria, restauração, agências de viagens e animação turística, comércio e serviços. Estes financiamentos podem ser amortizados até 4 anos com períodos de carência até 12 meses e juros indexados à Euribor com “spreads” que não ultrapassam 1,5%. É nas taxas de juro oferecidas pelos bancos que surge a primeira contestação. Se os bancos têm acesso a fundos a uma taxa negativa de -0,75% por parte do BCE, porque é que aplicam aos créditos os “spreads” de 1,5%?
Importa não esquecer que os bancos suportam uma estrutura de custos elevada que vão desde as pessoas à tecnologia e têm investimentos avultados a empreender representados por custos de alguns milhões de euros de modo a estarem habilitados a cumprir com as exigências regulatórias e de supervisão, nacionais e europeias. Aos bancos são exigidos novos instrumentos para operarem e salvaguardarem os interesses da instituição, dos seus colaboradores, dos acionistas e dos clientes. Para além dos investimentos necessários para desenvolver a banca digital de forma segura e eficiente, existem atualmente um conjunto de obrigações que exigem elevadas doses de capital para dar cumprimento ao tratamento dos dados no âmbito do Regime Geral de Proteção de Dados, para respeito das normas de “Compliance” (normais legais e regulamentares da atividade bancária) ou para garantir a segurança e fiabilidade da informação. Estas são razões que devem merecer a atenção da sociedade pois sabemos que os bancos não devem enveredar por negócios que não remunerem o custo do capital sob pena de degradarem a sua situação financeira e económica...e virem a pesar no Estado.
É também verdade que numa situação de crise económica, as falências das empresas e o incumprimento dos créditos terminará inevitavelmente no balanço dos bancos pelo que deve ser claro que estes serão os primeiros a desejar uma economia sã, empresas fortes e capazes de solver os seus compromissos. Para tal é necessário que as operações de crédito sejam minimamente seguras e rentáveis, que as garantias recebidas sejam adequadas ao risco que lhes é reconhecido e que sejam contabilizáveis corretamente não ferindo a realidade dos balanços. Como clientes, acionistas ou cidadãos devemos exigir aos bancos clareza, verdade e transparência nas suas operações. Por isso, não é recomendável os bancos financiarem a economia à taxa zero, ainda que com garantias a 100% do Estado, já que não se trata de uma questão de risco mas de resultar daqui que a maioria terá prejuízo nestas operações uma vez que não terá margem para cobrir os custos destas.
Resta portanto que tenhamos a noção do que é o negócio bancário, das dificuldades, exigências e desafios que atravessa, dos cuidados a ter com uma gestão criteriosa da sua atividade em prol da instituição mas também dos clientes, colaboradores e acionistas. O papel dos bancos sempre foi e será indispensável para recuperar e estimular a economia e apoiar as empresas e as famílias, é isso que a sociedade lhes exige e é isso que os bancos sabem ser o seu papel. Por isso é determinante a sua intervenção na economia num momento como o atual e indispensável o seu contributo para recuperar e reforçar as capacidades do tecido empresarial, ajudar as famílias e melhorar a vida em sociedade sendo certo que esse esforço reverterá a favor do seu próprio negócio e solidez. E é necessário um sinal ético que pode passar pela suspensão dos dividendos.
A missão dos bancos é serem o veículo mais adequado para conduzir e gerir os fluxos financeiros próprios, do Estado, do BCE ou outra instituição europeia para a economia. É chegado o momento da verdade dos bancos: apoiarem a economia evitando que esta crise económica se transforme numa crise financeira.
Por Mário de Jesus
Membro da Ordem dos Economistas nº 3122





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