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Como é difícil hoje em dia para um economista falar…de economia!

  • Foto do escritor: DRCA
    DRCA
  • 27 de abr. de 2020
  • 6 min de leitura

Atualizado: 28 de abr. de 2020


Por Madalena Estevão - Membro da Ordem dos Economistas nº 3621


Há um distanciamento generalizado das pessoas em relação a palavra “economia”.

“Deixemos, por uma vez, a economia e salvemos as vidas”!

Isto é o que mais vezes tenho ouvido daqueles com quem me atrevo a partilhar ideias sobre a crise do coronavírus que estamos a viver e que me olham indignados perante a minha tamanha insensibilidade.

A morte de centenas de pessoas, todos os dias recordada em várias horas de noticiários e muitas páginas de jornais em papel ou digitais, é um argumento com muito mais significado para as pessoas do que a queda do PIB, convenhamos.

O que é uma maleita da economia comparada com a morte de uma pessoa?

Já ninguém tem lucidez para pensar que a morte convive com a vida todos os anos e que é normal morrerem 10.000 pessoas só no mês de março (média 2016-2018), muitas delas por terem sido contagiadas por outro coronavírus e não terem resistido a patologia respiratória.

Porque os números surgem-nos absolutos, sem qualquer comparação homóloga.

As pessoas estão assustadas e a última coisa de que querem ouvir falar é da economia porque não associam economia a vida.

Mas economia é emprego e emprego é o meio de sobrevivência da maioria da população e não poder sobreviver é morte. É, pelo menos, antecipação da morte e um brutal sofrimento.

Economia pode não ser a vida de hoje – como é a ameaçada pela covid-19 – mas é a vida do amanhã.

Mas a visão do curto prazo, típica de situações de pânico, é o que tem dominado as decisões na maior parte dos países da Europa (e não só). O medo tira lucidez, atrapalha a tomada de decisão.

Acresce ao medo a opinião pública - a mesma para quem economia não é vida - vidas são só aquelas que conseguimos salvar da covid-19.

E o resultado está à vista.

Destrói-se a economia e os milhões de vidas que dela dependem, para proteger outras vidas, igualmente importantes, mas não mais importantes.

“No ocidente já ninguém morre de fome”, argumentam.

Vamos então falar sobre isso. Não se morre de forma clara ao ponto de alimentar um boletim diário como a covid-19, mas morre-se por doenças evitáveis, doenças curáveis que se perderam numa interminável lista de espera de um SNS sem dinheiro para mais, morre-se mais cedo, perde-se vida com a pobreza.

“10.600 é o número de novas famílias que desde o início da pandemia preencheram o formulário a pedir ajuda na Rede de Emergência Alimentar, estruturada pelo Banco Alimentar Contra a Fome” (Expresso, 24/4).

Mas se o argumento é geográfico, continuemos a falar sobre isso (ou só valorizamos a morte no ocidente?) quantos não são salvos de morrer (diretamente) de fome pela ajuda de outros países, países esses que se ficarem falidos vão deixar de ajudar?

Quantos programas de vacinação, saneamento básico, luta contra a fome, apoio a campos de refugiados… serão interrompidos ou enfraquecidos porque essa coisa abstrata que é a economia dos países doadores não permite salvar outros para além dos seus cidadãos (e mal)?

Quantas pessoas morrerão pela falta desse único apoio que lhes restava? Certamente não serão dados atualizados num boletim diário com honras de destaque à hora do almoço e repetido ao jantar.

“O mundo está à beira de uma pandemia de fome. Se não se agir, haverá fome de proporções biblícas” David Beasey, Diretor da Agência das Nações Unidas para a Alimentação.

Mas continuemos a falar sobre isso. Vivemos numa urgência climática que não se resolveu. A preocupação em relançar as economias vai deitar por terra qualquer medida restritiva ou transformacional que é necessária para não agravar o aquecimento global mas que pode ter de prejudicar, no presente, o emprego.

Muitos milhões de pessoas irão continuar a morrer fruto das alterações climáticas que se expressam em fenómenos da natureza mais violentos, mais inesperados e de muito maior impacto (ex. seca extrema, incêndios, tempestades de proporções devastadoras). Em 2017 morreram 118 pessoas nos incêndios em Portugal, nunca tinha acontecido nada parecido. Foi um aviso.

O fecho das economias, com a sua consequente destruição, pode ser medido em perda de vidas que não tem comparação com o potencial mortífero deste vírus, mesmo nos piores cenários.

Há aqui um desequilíbrio entre a atenção que se dá à “ameaça covid” e a outras ameaças à vida, entre o curto e o médio/longo prazo, entre gerações mais novas e mais velhas cuja ausência de debate dificilmente se entende.

“Não havia alternativa”, dizem.

Os factos não parecem demonstrá-lo.

E temos de falar na Suécia, esse elefante sentado na sala que ninguém parece notar.

E Portugal pode facilmente comparar-se por ter uma dimensão idêntica.

“Mas a Suécia está muito mal, com muito mais mortes do que Portugal”, atiram.

Escolher esse indicador é de quem não quer olhar para a situação com seriedade.

Tento explicar, pela enésima vez.

A finalidade do confinamento é reduzir o contacto social de uns otimistas 40%, se dependesse só do cuidado e bom senso das pessoas (caso da Suécia), para uns 70% se for à força, com lockdown (Portugal e outros).

Ou seja, para comparar os resultados das opções de dois países temos de olhar para o número total de casos (que é o que é influenciado pelo confinamento) e para a duração do surto (porque estamos a falar de um acumulado que crescerá sempre no tempo).

Prosseguindo, o indicador válido é o nº de casos acumulados por dia de surto:

Suécia: 18.000 (ao 85º dia) equivale a 219 casos por dia.

Portugal: 23.000 (ao 56º dia) equivale a 426 casos por dia.

Conclusão inequívoca: até agora, contaminamos-mos mais uns aos outros fechados do que os suecos nas ruas, escolas, lojas e restaurantes.

“Então e a taxa de mortalidade que é de 10% comparada com os nossos 3,7%?” novamente tentam desmontar o meu raciocínio.

Já não tem nada a ver com o isolamento social.

Enquanto que até ao momento do contágio o que interfere é a sociedade/número de contactos mais as características dos indivíduos (resistência vs vulnerabilidade ao vírus) o que acontece depois do contágio ocorrer já depende da capacidade do SNS, novamente das características dos indivíduos e também das opções clínicas de tratamento.

Na Suécia, o SNS ainda dá resposta dentro da sua capacidade e partindo do princípio de que os suecos não são estruturalmente menos resistentes que os cidadãos de outros países, restam as opções clínicas. Saber que a média etária dos indivíduos que morrem é 20 anos superior à dos que passam por cuidados intensivos, pode explicar muita coisa. E podemos ligar essa informação com os alertas médicos que têm vindo a público sobre as sequelas, qualidade e esperança de vida daqueles que são submetidos a esses tratamentos, em particular os mais velhos e os mais frágeis.

Parece aqui que quer política quer clinicamente os Suecos estão a ter uma capacidade mais racional de decidir. Estão, no fundo, bem cientes de que o Homem não se pode sobrepor à natureza e à morte e nem pode salvar tudo e todos em todo o momento.

Acresce referir que a comparação de números está longe de terminar. Mesmo que houvesse mais casos por milhão de habitantes na Suécia, com uma imunidade estimada de 26% (ou mesmo mais) este país está menos vulnerável a novas vagas. Espero que não aconteça, mas pode ser aí que a diferença de resultados se torne definitivamente gritante.

Escolher o mal menor, é o que a Suécia tem feito, sendo que é sempre de vidas que estamos a falar nos dois pratos da balança. Não é vida vs economia é vida vs vida, vida hoje vs vida amanhã, sempre vida.

Estima-se uma redução de 4% do PIB sueco e de 6 (?) 8% (?) do PIB português (and counting...).

Os números vão mudando, mas a ordem de grandeza da diferença temo que, ao mudar, seja a nosso desfavor. A Suécia pode ainda assim dispor de muito mais da sua riqueza para recuperar e evitar a fome porque só tem de pagar juros de uma dívida que é equivalente a 38% do que produz e, por isso, também não tem dificuldade em pedir mais emprestado.

Já Portugal, tem de descontar do seu dinheiro disponível para ajudar os cidadãos e as empresas, o encargo com uma dívida de 122% com juros a subir e cada vez com menos interessados em emprestar.

“Copiamos boas práticas, fizemos como a China e outros asiáticos onde resultou”, novo argumento.

Mas nem o momento em que o fizemos era o mesmo – e a eficácia depende disso - nem temos o dinheiro que tem a China para tamanha ousadia.

Acredito que a decisão estratégica de longo prazo que tem dominado a política sueca não resista à pressão da opinião pública “estão a perder-se demasiadas vidas” a tal opinião que só vê um dos pratos da balança, mas que em democracia é muito forte.

Sofrer agora para estar protegido depois, pode não ser argumento suficiente porque uma morte no presente vale muito mais no sufrágio dos cidadãos do que uma morte - ainda que mais do que certa - no futuro.

Ainda assim, se algum país deve olhar com mais atenção para a Suécia, é o nosso.

Com adaptações justificadas, nomeadamente pelo seu perfil demográfico, de atividade, etc, com uma campanha de informação e de sensibilização fortíssima, com uma mobilização sem precedentes, os Portugueses ultrapassariam os suecos em contenção, não tenho dúvidas.

Se lhes fosse explicado ANTES o preço da alternativa: o seu emprego, a sua casa, a sua sobrevivência.

Ainda vamos a tempo de o fazer e de nos prepararmos para uma atuação mais racional – temos agora mais informação! - e com maior Visão de longo prazo, no caso de haver uma 2ª ou 3ª vaga de contágios que, do meu ponto de vista, não pode ter como resposta um novo lockdown.

Mas isto não está fácil para um economista atento, colegas…

 
 
 

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