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Derrota no Afeganistão

  • Foto do escritor: DRCA
    DRCA
  • 23 de ago. de 2021
  • 2 min de leitura

Por Jorge Fonseca de Almeida - Membro da Ordem dos Economistas nº 1083


As imagens de Saigão 1975 repetem-se em Cabul 2021. Um aeroporto apinhado de colaboradores de baixa importância do regime patrocinado pelos Estados Unidos em fuga desesperada com as forças nacionalistas já na cidade. Naturalmente os colaboradores mais importantes, incluindo o Presidente, tinham há muito abandonado o país.


Em poucas semanas o regime político afegão privado da proteção militar americana estatelou-se silenciosamente abandonado pelas suas tropas, numerosas, bem armadas e treinadas pelos americanos e europeus, e pela sua população. E um punhado de guerrilheiros mal armados toma com extrema facilidade o poder.


Depois de 20 anos de perdas humanas e rios de dinheiro gasto os Estados Unidos abandonam o Afeganistão derrotados pela resistência paciente e persistente dos talibãs. Durante este tempo os ocupantes desenvolveram em larga escala duas indústrias, ambas controladas pelos seus aliados afegãos: a do ópio e a da prostituição. Ambas com a sua clientela entre as dezenas de milhares de soldados estrangeiros estacionados no país.


Mas a derrota dos Americanos é uma preocupação para a Europa e para a China. Porquê?


A enorme poupança de gastos que a retirada do Afeganistão significa pode agora ser canalizada por um lado para a economia, controlando o risco de inflação que o projeto Biden de grandes investimentos públicos em infraestruturas colocava, e por outro na militarização crescente da Ásia com vista ao cerco estratégico da China.


A recuperação robusta americana, no momento em que a Europa recupera lentamente da enorme recessão de 2020, ameaça deixar a União Europeia ainda mais para trás na corrida económica. Adicionalmente Biden mantém a política protecionista de Trump, preferindo as empresas americanas, e nalguns casos até explicitamente, como forma de combater o racismo, as empresas afro-americanas. Uma recuperação rápida americana é mais um fator para agravar a continuada decadência da Europa ocidental.


Por isso as vozes europeias criticam a retirada norte-americana, ao mesmo tempo que não se oferecem para continuar a ocupação do Afeganistão. Esta era um peso sobre os americanos que favorecia a Europa.


Uma preocupação para a China uma vez que os EUA vão seguramente poder investir mais na expansão das suas forças militares na Ásia procurando apertar o cerco estratégico à China controlando as rotas comerciais fundamentais para essa grande potência económica mas ainda militarmente débil.


Finalmente para o povo afegão abre-se um novo capítulo em que o seu destino volta para as suas próprias mãos. Naturalmente os talibãs alicerçados em interpretação extremamente conservadora do Islão não são a melhor opção para garantir as liberdades democráticas e o progresso económico acelerado. Por isso não seria de admirar que outras soluções possam emergir no curto prazo e que possam lançar o país numa guerra civil.


 
 
 

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