Dos Insetos e dos Humanos: O Ambiente e o Mercado
- DRCA

- 28 de mar. de 2022
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Por Pedro Almeida Jorge - Membro da Ordem dos Economistas nº 15846
Por ocasião do lançamento do livro Ambientalismo: Uma Visão de Mercado, publicado numa parceria entre o Instituto Mais Liberdade e a Alêtheia Editores, partilho alguns excertos de um recente artigo por mim escrito para o jornal ECO, onde sugiro que "o sistema de mercado, qual colónia de insetos, demonstra um nível de inteligência superior ao que qualquer um dos seus agentes individuais poderá alcançar." O artigo completo pode ser lido aqui.
"No presente artigo gostaria de me focar no capítulo introdutório escrito pelo economista Steven Horwitz (1964 – 2021), no qual o autor sugere que “os defensores dos mercados deviam recorrer mais a analogias de ecossistemas naturais quando falam com ambientalistas.”
A sugestão é pertinente, porque, nas palavras de Horwitz, “tal como o processo biológico leva a que as espécies se adaptem aos seus ambientes à medida que as mutações favoráveis à sobrevivência são transmitidas às gerações futuras, também os processos económicos levam a que os seres humanos ‘se adaptem melhor ao seu ambiente social’, através da reorganização do mundo físico em disposições que geram mais valor.”
Assim, através das semelhanças conceptuais existentes entre “as ordens espontâneas dos mercados e as dos ecossistemas”, os economistas têm caminho aberto para estimular uma maior consideração pelos feitos “espontâneos” do nosso sistema económico nas pessoas que, hoje em dia, já apreciam a beleza e a eficácia dos fenómenos naturais.
Um brilhante exemplo desse potencial explicativo é o utilizado pelo economista Don Lavoie (1951 – 2001), antigo professor de Horwitz, no seu livro National Economic Planning: What Is Left? (1985). De acordo com o autor, “os estudos modernos demonstram que as sociedades de insetos não têm uma estrutura rígida nem são centralmente coordenadas.” Destarte, apesar não serem inteligentes nem terem um “comandante central”, muitas espécies de insetos utilizam um género de “comunicação de massas” para organizarem as suas colónias. No caso das térmitas, fazem-no através da transmissão de “feromonas”, sinais químicos que transmitem umas às outras. Cada indivíduo recebe e transmite informação sem ter conhecimento detalhado sobre o que se passa na colónia como um todo. Através deste simples mas complexo sistema, atinge-se portanto um resultado em que o nível de inteligência da colónia é, por assim dizer, superior ao de qualquer um dos insetos individuais.
Com os humanos passa-se algo incrivelmente parecido. Como fica patente no vídeo inaugural do Instituto Mais Liberdade, o fabrico de algo tão simples como um lápis de grafite requer a complexa organização da “colónia” de humanos por esse mundo fora. Mas cada um de nós não faz ideia de quem são os trabalhadores do outro lado do mundo que estão a cooperar connosco. Em lugar das feromonas, os sinais que utilizamos para nos coordenarmos sem um planeador central são os preços de mercado e os seus desideratos: os lucros e prejuízos.
Assim, quando vamos ao supermercado, o nosso ato de comprar ou ignorar os produtos que ali estão à venda a determinado preço é semelhante à transmissão de feromonas por parte de cada uma das térmitas. No mercado, cada decisão de cada um dos consumidores faz-se sentir, através dos lucros e dos prejuízos, por toda a cadeia de produção. É esta, no fundo, a lição por detrás da “mão invisível” de Adam Smith: o sistema de mercado, qual colónia de insetos, demonstra um nível de inteligência superior ao que qualquer um dos seus agentes individuais poderá alcançar. Ou, parafraseando Adam Ferguson, um outro famoso iluminista escocês do séc. XVIII, o mercado é “certamente o resultado de ações humanas, mas não a execução de qualquer desígnio humano”.
O “preço certo” ou “preço matemático” dos bens e serviços depende de tantas circunstâncias particulares que nenhum homem e só Deus o poderá conhecer – eis a lição que Hayek atribuiu a Luís de Molina na sua palestra do Nobel. É, de facto, uma das mais profundas sabedorias da economia – e já era ensinada em Coimbra no século XVI. Oxalá possamos voltar a apreciar esta tradição de pensamento ibérica, a qual, como vemos, oferece uma das mais férteis analogias entre a economia e a natureza, e poderá, sem dúvida, constituir uma mais-valia nos desafios à liberdade que se aproximam neste e noutros âmbitos."





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