Empreendedorismo: a falsa ilusão
- DRCA

- 27 de ago. de 2021
- 2 min de leitura

Por Jorge Fonseca de Almeida - Membro da Ordem dos Economistas nº 1083
Durante décadas Portugal tem investido milhões de Euros do erário público a fomentar o empreendedorismo. Criaram-se dezenas de ninhos de empresas, de incubadoras de empresas, investiu-se na formação, na capitalização das startups, no apoio técnico aos empreendedores.
Depois de décadas desta política de generosos gastos públicos a realidade impõe-se: daí não resultou qualquer transformação de monta do tecido produtivo nacional, não resultou nenhuma empresa que tenha crescido e passado a fase de PME, não resultou qualquer salto tecnológico para o país.
É certo que se criaram temporariamente algumas empresas, a maioria das quais aliás já se extinguiu. Mas faltam dados para saber se a taxa de criação de empresas e emprego é mais alta nas zonas beneficiadas com estes pródigos apoios do que na generalidade do país. Com os generosos apoios atribuídos estas empresas provavelmente sobrevivem mais tempo. Não porque sejam melhores do que as que não beneficiaram desses apoios mas simplesmente porque são mantidas artificialmente.
Os recursos nacionais são escassos e não podem ser desperdiçados. É tempo de perceber que o farto apoio logístico e financeiro ao empreendedorismo não resulta em benefícios correspondentes para o país. É tempo de por um travão a este tipo de gastos inúteis. De canalizar estes recursos para setores mais produtivos da economia.
Sabe-se hoje que a maioria das inovações disruptivas não surgem do empreendedorismo mas sim do intraempreendedorismo, isto é do interior das empresas já existentes, normalmente das grandes empresas. Os casos das vacinas contra a Covid-19 o atestam - as vacinas vieram de grandes empresas como a Pfizer ou a Moderna e não de minúsculos empreendedores subsidiados. As grandes empresas têm os recursos e o saber que lhes permitem liderar na inovação. Existem, obviamente, exceções, mas são casos que confirmam a regra.
Esta é a aposta que faz sentido, ajudar as empresas portuguesas, públicas e privadas, a crescer e a internacionalizar-se. Uma grande empresa nacional faz mais pela inovação, pela adoção de tecnologias de ponta, pela modernização do país, pelo emprego qualificado, do que milhares de pequenos empreendedores principescamente subsidiados. E com menores recursos.
A perda de grandes empresas nacionais, vendidas a estrangeiros, como a Portugal Telecom, grande parte do setor bancário, etc., ao criar as condições para a transferência das áreas de pesquisa e desenvolvimento para fora do país, foram rombos dificilmente reparáveis na modernização e no crescimento da economia portuguesa. Estas empresas de fatores de desenvolvimento passaram a causas de atraso. Veja-se a adoção do 5G, que vai suportar uma nova vaga de inovação e de mudanças tecnológicas, em que Portugal, uma vez mais, está a ficar para trás. As empresas de telecomunicação estrangeiras empenhadas na introdução do 5G noutras geografias e mercados, deixam Portugal para o fim.
É preciso deixar as ilusões do empreendedorismo e canalizar os nossos parcos recursos para apoiar as empresas de média dimensão a crescer e a afirmar-se no contexto internacional. A aposta na criação de empresas públicas (inclusive porque o setor privado não possui os recursos para o fazer) ou de capital misto com escala competitiva deve ser uma prioridade complementar. É por aí que passa o futuro da nossa economia e da nossa inovação.




O autor levanta um tema importante. Contudo, não apresenta quaisquer estatísticas ou conclusões de estudos sobre a matéria, limitando-se a dar uma "opinião" com base numa perspetiva ou sentimento pessoal. Por outro lado, argumenta o autor que são as "grandes empresas" nacionais que deveriam ser favorecidas porque geradoras de progresso e de inovação. A realidade, contudo, parece não aderir à visão do autor. A Portugal Telecom foi responsável pela destruição de 7,5 mil milhões de euros de valor acionista, apenas ultrapassada pelos principais bancos nacionais, que foram responsáveis pela destruição de valor acionista superior a 15 mil milhões de euros nos últimos 20 anos. A TAP dispensa comentários, embora a aviação civil talvez tenha - ainda assim, ficado atrás da…