Está errado, Sr. Hubertus Heil: o teletrabalho não deve ser um direito dos trabalhadores
- DRCA

- 4 de mai. de 2020
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Por Madalena Estevão - Membro da Ordem dos Economistas nº 3621
(carta aberta ao Ministro do Trabalho alemão)
“Caro Sr. Ministro Hubertus Heil,
Numa entrevista ao “Bild am Sonntag” (26 de abril), diz que pretende introduzir o direito à opção pelo teletrabalho nos casos em que tal seja possível, mesmo depois de terminada a crise da pandemia do novo coronavírus.
Permita-me que discorde da sua proposta e espero que vá ainda em tempo de a poder reformular!
Sendo a Alemanha o país onde a produtividade é referência mundial, essa medida é uma inequívoca aprovação do teletrabalho em contextos económicos e produtivos particularmente competitivos. Esta declaração, vinda de quem vem, depois do teste real que foi feito em muitas semanas de pandemia, esvaziou, de rompante, qualquer discussão ou estudo em torno da validade do teletrabalho. Passamos claramente para outro patamar: o de não perder mais tempo com o assunto que se faz tarde.
No entanto, será que é apenas na produtividade e na satisfação/vida dos trabalhadores que esse resultado positivo se manifesta e que o leva a deixar à escolha exclusiva desse grupo de cidadãos em particular?
Vamos ver se conseguimos listar aqui rapidamente os efeitos que resultam de um rápido raciocínio, independentemente de poderem ter diferentes dimensões:
• Para os trabalhadores: cresce o salário líquido disponível pelas poupanças com deslocação e alimentação em dias fora de casa (por exemplo 2 dias de teletrabalho por semana poderia representar uma poupança mensal de 100 euros o que num salário líquido de 1000 representa um aumento de 10% no rendimento disponível). Não perdem o contacto pessoal, o convívio, a dinâmica de equipa, a rotina saudável de ir trabalhar porque continuariam a fazê-lo 60% do tempo. Abrevio aqui os benefícios de conciliação com a vida familiar por ser um tema que também não traz novidade.
• Para as empresas: reduzem no imediato os custos variáveis com utilities, na segurança, entre outros e podem planear o redimensionamento permanente das suas instalações. E, conclui a Alemanha, não prejudica a produtividade (vindo a pronta aceitação do vosso lado, suspeita-se que tenham mesmo chegado à conclusão inversa…).
• Para a sociedade: haverá menos pessoas na rua em hora de ponta, menos tempo perdido, menos insatisfação e desgaste e, até, menor sinistralidade rodoviária.
• Para o objetivo (urgente) -1,5º C: redução de viaturas a circular equivale a redução de emissões, também demasiado óbvio, particularmente nas grandes cidades onde o potencial de teletrabalhar é mais elevado.
• Para a saúde: menor concentração de pessoas nos locais de trabalho e nos transportes públicos promove a redução de contágios de todos os tipos, nomeadamente de gripe sazonal “seasonal influenza”, a qual tem anualmente um sério impacto na produtividade (aumento do absentismo) e no SNS (em todo o mundo).
• Para o SNS: menos contágios resulta em menor procura mas também a existência de um instrumento alternativo à “baixa”, para justificar uma ausência presencial ao trabalho, reduziria a procura de serviços clínicos essenciais para efeitos quase administrativos “ir ao médico de família só para obter o papel” (à cautela, o médico passa mais dois dias de baixa e o que ficaria resolvido com um dia ou dois em casa, em teletrabalho, pode cortar três ou mais dias de produção para a empresa, transferindo-se temporariamente o trabalhador do papel de contribuinte produtivo para dependente da segurança social). Simples constipações que não nos impedem de trabalhar mas que nos devem impedir de partilhar espaços com outras pessoas, poderiam ser geridas em teletrabalho desde que o trabalhador comprovadamente conseguisse continuar a cumprir a sua função – e é para isso que servem as chefias - aliviando o SNS e a Segurança Social. (é uma das contradições dos modelos tradicionais que esta pandemia já ensinou o suficiente para ser corrigida: elogia-se quem vai trabalhar “mesmo tão doente, coitado”, deixando impecável a sua folha de assiduidade e um rasto de contágios por onde passou que vão custar ao Estado e aos cidadãos – e muito provavelmente à própria empresa - muito mais do que vale a sua presença no local de trabalho…pessoas e empresas convivem bem com este comportamento altamente penalizador da economia, da saúde pública e do interesse coletivo)
• Nos locais de trabalho/clima organizacional: ganha-se a redução do ruído, da movimentação, das filas no refeitório ou na máquina do café, nos lugares de estacionamento e um menor desgaste nas relações interpessoais, ao mesmo tempo que se aumenta a satisfação, a motivação e o compromisso (mas já estava há muito tempo demonstrado que quando damos às pessoas algo que impacta com os seus essenciais – saúde, segurança, família – elas devolvem em dobro em tempos de Pandemia e fora destes).
Não tornam, estes benefícios, em absolutamente estratégica uma medida sem custos? Não é, afinal, do mais elementar interesse público? Pode ser, assim, deixada à escolha de apenas um dos muitos agentes económicos a quem beneficia? O Sr. Hubertus Heil está, lamentavelmente, errado. Dir-me-á que num regime liberal e de livre iniciativa privada não se pode impor aos empresários formas de gerir as suas empresas, nas quais arriscam o seu capital, como seria a medida de fixar um rácio obrigatório teletrabalho/trabalho presencial.
Estamos de acordo. Mas o Estado tem outras formas de influenciar boas práticas e decisões dos privados quando estas influenciam o interesse público. E, neste caso, também não lhe falta argumentos económicos e orçamentais.
Há instrumentos ao serviço dos governos – e até dos parceiros sociais – que podem ser acionados para induzir esta transformação de que a sociedade tão stressada e tão “sobrelotada” tanto precisa. Prémios, incentivos económicos e fiscais, diferenciação das contribuições para a segurança social, entre muitos outros. A própria UE deveria implementar uma linha de incentivos neste sentido.
Não lhes falta sequer o argumento da oportunidade – terá havido na História momento mais crítico para aproveitar uma medida – no presente e no futuro - que aumenta salários e que reduz despesas às empresas e ao Estado?
A possibilidade de trabalhar independentemente do local é, tão somente, mais um elemento de FLEXIBILIDADE e capacidade de adaptação, essas características tão essenciais à sobrevivência das Organizações e dos países num futuro cheio de incertezas.
Mais do que uma opção de trabalhadores e empresas, é uma medida estratégica para a sociedade e a economia.
Todos irão chegar lá, a Alemanha poderia ajudar a abreviar esse percurso.
Mas ainda há outro erro no seu raciocínio, Sr. Hubertus Heil. Quando diz que o trabalhador pode optar por trabalhar de forma totalmente remota ou apenas parcial. Uma das coisas que esta crise nos está a ensinar é que o “totalmente” não é sustentável. Pode até colocar questões de saúde física e mental não negligenciáveis. Fiquemo-nos pelo complementar, qualquer coisa entre os 30 e os 50% do tempo de trabalho. Uma solução de compromisso.
Ainda vai a tempo de reformular a sua proposta e nem tem de revelar que se inspirou no blog do ECONOMISTA ATENTO…”





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