Finis Patriae: quando o melhor é insuficiente
- DRCA

- 15 de fev. de 2022
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Por Jorge Fonseca de Almeida - Membro da Ordem dos Economistas nº 1083
Em 2021 Portugal teve o maior crescimento económico dos últimos 30 anos - 4,9%. Graças às políticas do governo, ao empenho das empresas, mas principalmente do regresso dos turistas o nosso país conseguiu atingir um patamar de expansão do PIB de grande magnitude.
É certo que em 2020 Portugal experimentou a segunda maior contração económica da União Europeia, com o decréscimo de mais de 8%. Partindo de uma base menor o crescimento é, em geral, mais fácil. Mas não retiremos mérito ao governo e às empresas e reconheçamos que quebrar um recorde de 30 anos nunca é fácil mesmo em condições favoráveis; que tivemos outras que não aproveitamos.
Podemos deitar foguetes? Infelizmente não. É que o crescimento médio da União Europeia foi superior, situando-se nos 5.1%. Apesar de partirem de base maior, porque a sua recessão tinha sido menor, conseguiram ter melhor resultados que Portugal.
É caso para dizer que o nosso melhor não foi suficiente. Ficamos mais uma vez para trás.
No horizonte perfila-se uma nesga de sol que poderá ser tapado por três nuvens carregadas.
A nesga de sol são os fundos públicos europeus, a terrível bazuca, que chegam para ajudar as empresas privadas a investir. Terão certamente um efeito positivo na economia, pelo menos no curto prazo.
A primeira nuvem carregada é que o quarto trimestre de 2021 mostrou uma desaceleração do crescimento. A pandemia não desapareceu e o mês de Janeiro viu muitas empresas reduzirem a produção por falta de trabalhadores (muitos dos quais em casa em quarentena obrigatória). A ideia de liberdade total e deixar o vírus espalhar-se, a célebre endemia, só pode causar mais mortes desnecessárias e mais problemas económicos, incluindo no turismo.
A segunda nuvem carregada é a inflação na zona Euro que atingiu os 5% em Dezembro e que se espera ultrapasse esta marca em Janeiro (ver Eurostat), colocando cada vez maior pressão sobre o Banco Central Europeu para que suba as taxas de juro. Taxas mais altas significa aumento de juros a pagar pela divida pública e, para manter o deficit dentro dos limites impostos pela União Europeia, austeridade. Austeridade significa recessão económica.
A terceira nuvem carregada é a crise na Ucrânia que fará deslocar para leste, não só tropas, como investimentos em infraestruturas acelerando o crescimento desses países que são os poucos que ainda estão atrás de Portugal. Atente-se, por exemplo, na Roménia.
O ano de 2022 vai ser assim um ano difícil, de navegação à vista, de austeridade social, com os salários reais a descer, e de nova divergência com os nossos parceiros da União Europeia. Mais um ano no caminho da cauda da Europa.
O que fica de 2021 é a triste conclusão de que o nosso melhor é insuficiente. Que esse é um claro sinal de decadência, de declínio, de incapacidade de andar ao ritmo dos nossos parceiros. Como um animal ferido, Portugal atrasa-se. E nestas corridas de longo prazo parar é morrer.




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