França a ferro e fogo
- DRCA

- 17 de jul. de 2023
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Por Jorge Fonseca de Almeida - Membro da Ordem dos Economistas nº 1083
Uma centena de milhares de polícias na rua. Armados até aos dentes. Utilizando veículos blindados e drones. Prendendo diariamente centenas de opositores ao regime. Escutando as redes sociais. Impondo o recolher obrigatório. Se fosse no Irão ou na Bielorrússia tal atuação seria fortemente condenada pela comunicação social e destacados os problemas sociais e políticos do país. Como é na França apoda-se os manifestantes de vândalos, e louva-se o trabalho da Polícia.
Louva-se o trabalho da Polícia! Quando foi a atuação de um polícia que desencadeou, (como no Irão, lembram-se?) toda a revolta recalcada e latente. No Irão um polícia de costumes matou uma rapariga por um motivo fútil de não cumprimento do código de vestuário, não tinha o véu bem colocado, em França um polícia matou um jovem por um motivo fútil, uma infração ligeira do código da estrada.
No entanto por detrás destes motivos aparentemente fúteis estão regimes intolerantes. O primeiro de caráter religioso, que persegue os opositores à religião oficial, o islamismo xiita. No segundo um regime intolerante de tipo racista que persegue e aterroriza as minorias étnicas e religiosas (neste caso os muçulmanos). Em ambos os casos vemos um tipo de perseguição religiosa e racista.
A França foi, no século XIX, e nos primeiros anos do século XX um país de luzes, de cultura, de progresso social. Um país que muitos seguiam e em que viam um exemplo. Já então o pecado do colonialismo corroía a França. Hoje é um país em decadência.
Neste ano de 2023 o Presidente resolveu entrar em guerra contra a própria população. Primeiro um longo braço de ferro contra os trabalhadores para impor uma nova idade da reforma, que trouxe para a rua milhões de pessoas. No final, de forma autoritária, Macron impôs a sua lei contra a vontade da grande maioria dos franceses. Que bela democracia.
Agora vai mais longe envia milhares de polícias de choque contra crianças, já que foram as autoridades francesas a divulgar que grande parte dos manifestantes e dos presos são menores de idade. Que bela democracia.
O que explica este levantamento popular são as condições de vida de largos extratos da população francesa. Muitos são racializados e vítimas de racismo, na procura de emprego, no acesso à escolaridade, no quotidiano assédio pela polícia que age com total impunidade.
O que explica este levantamento popular inorgânico são os guetos para onde são atirados os pobres, as minorias étnicas (como os portugueses) e os desvalidos da sociedade.
O que explica este levantamento popular inorgânico é o crescimento da extrema-direita que humilha e provoca estas populações.
O que explica este levantamento popular inorgânico é a política neoliberal de retirada dos apoios sociais a largas camadas da população.
O que explica este levantamento popular inorgânico é a inflação que atinge mais duramente as camadas populares e racializadas e as deixa à beira da fome.
Portugal, se não arrepiar caminho e não deixar de copiar a política francesa de negação do racismo, de impunidade policial e de neoliberalismo selvagem, pode preparar-se para levantamentos deste tipo num futuro próximo.




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