Guerra, Gás, Competitividade e Globalização
- DRCA

- 28 de mar. de 2022
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Por Jorge Fonseca de Almeida - Membro da Ordem dos Economistas nº 1083
Hoje as indústrias e os serviços são os grandes consumidores de energia, e o preço a que estas chegam às empresas determina em grande medida a sua competitividade global. Os recentes protestos vindos de vários setores de atividade assim o atestam.
A Guerra na Ucrânia veio alterar os mercados e criar vários fatores de mudança e instabilidade. A instabilidade é provisória, mas a mudança é de caráter mais prolongado. A grande mudança, decorrente de opções estratégicas e militares, é o encerramento do North Stream 2 e a prazo a redução ou mesmo abandono das importações russas de petróleo e gás. Acontece, porém, que as alternativas ao gás russo são todas mais caras, seja o gás vindo dos Estados Unidos, que implica a construção de novas infraestruturas de receção, armazenamento e distribuição, seja o gás importado do Médio Oriente ou de África. As alternativas verdes são ainda mais caras.
Este aumento, permanente e estrutural, do preço da energia na Europa vai diminuir a competitividade das empresas aqui estabelecidas, implicando aumentos significativos de custos e, consequentemente, perdas de mercado para outras empresas estabelecidas em geografias, como os Estados Unidos ou a China, onde a energia é mais barata.
Para evitar perdas de quota de mercado a resposta das empresas europeias a este aumento do custo da energia será o de deslocalizar a sua produção para os países de energia mais barata. Assim em vez de uma re-industrialização europeia corre-se o risco de assistirmos a uma nova vaga de deslocalizações, enfraquecendo ainda mais o tecido industrial europeu e o mercado de trabalho. Países como Portugal serão dos mais afetados.
Não sendo do interesse da União que estas deslocalizações se processem em massa, a tentação será recorrer ao aumento das taxas alfandegárias para onerar os produtos vindos de países de energias mais baratas. Esta política tem, contudo, limites. Em primeiro lugar porque não interessará à Europa, num momento em que se acolhe à aliança militar com os EUA, abrir um conflito aduaneiro com esse país. Em segundo lugar porque existem tratados internacionais que balizam o que cada Estado pode fazer em termos de restrições ao comércio livre.
Assim o que é espectável é por um lado a travagem dos planos de re-industrialização em várias áreas, o aumento seletivo das tarifas em certos produtos, a deslocalização parcial de várias empresas para destinos de energia barata.
O custo da mão-de-obra vai deixar de ser o fator principal por trás da globalização para passar a ser o custo da energia. Nesta nova etapa da globalização os Estados Unidos são o grande vencedor e a União Europeia um dos principais perdedores.




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