Movimento sindical e demografia
- DRCA

- 5 de jul. de 2022
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Por Jorge Fonseca de Almeida - Membro da Ordem dos Economistas nº 1083
Os censos demonstram que a cada ano que passa Portugal perde população. Alguns estudos da União Europeia apontam para que daqui a trinta anos o nosso país tenha apenas 5 milhões de habitantes, um recuo para cerca de metade do número atual.
Ora um mercado em diminuição continuada, e não esqueçamos que são as pessoas os clientes últimos de toda a produção, não permite o desenvolvimento económico, não favorece o aparecimento de novas industrias ou serviços, não estimula o investimento. A partir de certo momento deixa, inclusivamente, de haver mercado suficiente que justifique a oferta de múltiplos produtos, ou massa critica para a produção de outros - pois não haverá trabalhadores em todas as especializações necessárias.
A diminuição populacional é o caminho para a ruína do país. Daí que da direita à esquerda todos concordem ser necessário travar este declínio.
Quais as razões para esta cada vez mais preocupante diminuição da população? A primeira é a alta taxa de emigração, a segunda a baixa taxa de fertilidade. Todos os anos dezenas de milhares de portugueses, a maioria jovens adultos, sai do país. Vão trabalhar, viver e ter os seus filhos no estrangeiro. Os filhos serão já ingleses, franceses, ou de outra nacionalidade. A taxa de natalidade baixa resulta, também, da emigração embora não exclusivamente.
Os que ficam, os que aceitam os baixos salários e as difíceis condições de vida nacionais, não têm condições materiais para ter os filhos que desejariam.
O movimento sindical, pela defesa que faz dos salários e das condições de vida dos trabalhadores, tem um papel positivo na retenção de portugueses no nosso país.Atacado, silenciado e enfraquecido nas últimas décadas o movimento sindical tem perdido inúmeras batalhas, mas apesar de tudo tem mostrado vontade de continuar o seu trabalho.
A crise induzida pela resposta errada à pandemia está a ser violenta. Portugal foi dos países da União Europeia cuja economia mais se contraiu. E agora a recuperação está a ser muito lenta. Os números do crescimento parecem elevados mas não levam em conta a grande queda anterior. Assim Portugal vai ser dos últimos países europeus a atingir o mesmo nível de produção de 2019. Ficamos mais uma vez para trás e com todos a aplaudir pífios crescimentos. A acrescer à crise já instalada veio a guerra, acelerando a inflação já elevada, mas abrindo vias para o crescimento económico de alguns países ocidentais com base na indústria de armamento, na substituição das importações russas e ucranianas (gás, petróleo, cereais, etc.) e no fechamento das economias. Nada que favoreça Portugal.
Nesta conjuntura em que a perda de poder de compra induzida pela inflação está a flagelar os portugueses, se quisermos travar uma nova grande onda de emigração, é preciso apoiar e fortalecer o movimento sindical. Para que consiga repor e alargar o poder de compra, para que fixe trabalhadores, para que contribua para o desenvolvimento social mais harmonioso do nosso país, para que o crescimento se baseie em investimento em capital, maquinaria e digitalização, e não na exploração de mão-de-obra qualificada barata.
Sem um movimento sindical forte a emigração e a baixa natalidade vão continuar a corroer a coesão nacional e a abrir a porta da emigração a dezenas de milhares de portugueses todos os anos, levando o país para a cauda da Europa e para a ruína definitiva.




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