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Não queremos ser como Portugal

  • Foto do escritor: DRCA
    DRCA
  • 20 de abr. de 2023
  • 2 min de leitura

Por Jorge Fonseca de Almeida - Membro da Ordem dos Economistas nº 1083


As manifestações contra o aumento da idade da reforma em França continuam gigantescas com centenas de milhares de pessoas nas ruas das principais cidades francesas. O Presidente Macron indiferente ao sentir da população pretende levar avante esta alteração drástica sem o aceitamento das pessoas nem a aprovação do parlamento. A democracia ocidental tem destas coisas ...


As nossas televisões têm transmitido as manifestações e entrevistado vários manifestantes. Interessante foi um dia destes a resposta que uma jovem francesa luso-descendente deu para grande surpresa da locutora: "Não queremos ser como Portugal".


O que está implícito nesta frase? O que é ser como Portugal? E porque não querem estes jovens ser como o nosso país?


No contexto da entrevista parece claro que "ser como Portugal" é aceitar uma idade de reforma muito avançada que obriga as pessoas a manter-se no trabalho até muito tarde na vida. Mas também é manter idosos no ativo em lugares que podiam ser ocupados por jovens, retirando-lhes oportunidades de aprendizagem e carreira.


Mas acima de tudo a frase remete para a passividade com que em Portugal se aceitam todas as medidas governamentais mesmo as mais gravosas para a vida da grande maioria das pessoas.


Ela remete para a passividade com que os pais portugueses, por cobardia, formação ou personalidade aceitam toda a precariedade laboral, os baixos salários, o fim da contratação coletiva, e todas as afrontas laborais que depois levam a que os seus filhos tenham apenas duas alternativas: aceitar viver com pouco ou a emigrar.


Assim a frase pode significar "Não queremos ser uns bananas como vocês". Os jovens franceses querem vir para a rua lutar pelos seus direitos sociais, pelo seu futuro. Querem tomar em mãos a sua vida, construir uma sociedade justa, formar uma família e ter uma habitação condigna.


Esta passividade portuguesa é ótima para os reformados de classe média franceses que encontram em Portugal um país acolhedor de gente humilde pronta a trabalhar por pouco, de baixo custo e perto da França. Mas isso é uma coisa, outra é querer ser como Portugal. Isso, obviamente, não querem. Como poderiam viver confortavelmente no estrangeiro com as pensões portuguesas?


Muitos jovens franceses conhecem o nosso país. Os programas Erasmus abriram as portas, as férias oferecem mais uma oportunidade de nos conhecer, e até o trabalhou proporciona uma intensa troca de experiências com os jovens portugueses e com o nosso país. Os franceses luso-descendentes têm inclusive mais possibilidades de perceber a terra a que de alguma forma estão ligados. Desse conhecimento extraíram uma conclusão que frase lapidar da jovem francesa resume "Não queremos ser como Portugal".


Uma frase espontânea, uma frase que num primeiro momento nos magoa, mas que, depois de uma reflexão, podemos compreender e até concordar.


Na verdade, eu que sou alfacinha, nado e criado na nossa capital, em tantas questões sou levado a dizer "Não quero ser como Portugal". A diferença em relação à jovem francesa é que logo penso com entusiasmo e determinação que devemos mudar o nosso rumo e de deixar de "ser como Portugal". Não é uma tarefa fácil, mas vale a pena tentar.


Mas não deixa de ser triste ouvir estas verdades da voz de estrangeiros.




 
 
 

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