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O impacto do preço do petróleo na economia

  • Foto do escritor: DRCA
    DRCA
  • 27 de abr. de 2020
  • 4 min de leitura

Atualizado: 28 de abr. de 2020


Por Mário de Jesus - Membro da Ordem dos Economistas nº 3122


Há também boas notícias neste tempo de crise pandémica. A queda nunca antes vista do preço do petróleo pode traduzir-se em vantagens para as contas da economia nacional e para as empresas. É por isso importante saber aproveitar de forma inteligente as variáveis que são favoráveis ao Estado, empresas e famílias, otimizando o uso de um recurso cujo valor nos é favorável. Segundo dados da Direção Geral de Energia e Geologia (DGEG) Portugal registou um déficit energético de 4,9 mil milhões de euros em 2018 e de 5,4 mil milhões de euros em 2019, agravamento este que terá tido origem no aumento do preço do petróleo que se verificou nos últimos dois anos. Estes dados provam que Portugal é um país de elevada dependência energética ao ponto de ser, segundo os dados do Eurostat relativos ao ano de 2017, o sexto país com maior dependência da importação de petróleo da União Europeia (UE), o qual atingiu o nível dos 100%, estando apenas melhor que a Estónia (115%), Malta (104%), Eslováquia (103%), Bulgária (102%) e Chipre (101%). Este grau de dependência energética é calculado como o rácio entre as importações liquidas de petróleo (resultado das importações menos exportações) e o consumo interno de produtos petrolíferos. Se compararmos estes valores com os da União Europeia, verificávamos que a média de dependência das importações de petróleo dos países membros atingia nesse mesmo ano os 87%, entre os quais apenas seis países estariam abaixo desse índice de dependência (Reino Unido, Dinamarca, Roménia, Hungria, Croácia e Suécia). Como em Portugal temos, em termos comparativos com os nossos parceiros europeus, uma elevada percentagem de produção de energia através das fontes renováveis (especialmente produção eólica e alguma em equipamentos solares térmicos e fotovoltaicos para aquecimento de água e produção de eletricidade respetivamente), a dependência total exterior do país atinge cerca de 80% já que nesta equação entram não apenas as importações e exportações de produtos petrolíferos mas também de outras fontes energéticas. Ora num país com uma forte dependência energética e uma pesada fatura resultante deste déficit financeiro, extraído das trocas comerciais de produtos petrolíferos, a queda do preço do petróleo a que se assiste nos últimos dias não deixa de representar um impacto positivo nas contas nacionais pela variação menos negativa da balança comercial dos produtos petrolíferos. Esta é a primeira linha da equação. Naturalmente que os fatores económicos não são lineares e muitas vezes as equações económicas também não. Se por um lado o país ganha na fatura da dependência energética, por outro o Estado verá reduzidas as receitas provenientes dos impostos associados aos produtos petrolíferos. Por exemplo, na gasolina os impostos gerais (IVA e Imposto sobre Produtos Petrolíferos) atingem os 70% do preço final quando no gasóleo estes impostos rondam os 60%. Tudo dependerá da duração desta depressão de preços. Ainda assim, não sendo um país fortemente exportador, em termos macroeconómicos Portugal tirará algumas vantagens da redução dos preços do petróleo. Mas quem poderá obter maiores vantagens desta queda de preços são as empresas e as famílias. O petróleo é a matéria prima principal de uma miríade de produtos que consumimos no dia-a dia, sejam industriais ou de consumo doméstico. No campo empresarial, apenas para dar alguns exemplos, vemos no petróleo o principal ingrediente dos combustíveis para os transportes como a gasolina, o gasóleo, o diesel ou os óleos lubrificantes. Neste campo, a fatura do consumo de combustíveis pode descer nas empresas industriais ou comerciais e muito significativamente nas empresas de transportes. É também a principal componente do asfalto ou para a indústria química como as tintas, matérias-primas e produtos intermédios fundamentais para as empresas de construção. Ainda para a indústria, produtos como a borracha sintética têm no petróleo a sua principal componente e cuja aplicação vai desde a fabricação de pneus ao calçado ou artigos desportivos, passando pelo isolamento de cabos para a indústria elétrica. Ainda que a economia, por pressão da sociedade, esteja cada vez mais direcionada para a produção de energias renováveis, sabe-se que os painéis solares são também eles produzidos com resinas e plásticos baseados no petróleo. Para as famílias, a redução do preço do petróleo pode ter impacto na fatura de uma imensidão de produtos que consumimos diariamente. Para além da redução do custo dos combustíveis para os nossos veículos automóveis, também os detergentes de limpeza doméstica são compostos com derivados do petróleo, ou ainda muitos medicamentos que tomamos como os analgésicos e produtos homeopáticos, que são compostos por benzeno incorporando por isso este derivado do petróleo. Poderíamos ir muito além referindo que os tecidos sintéticos como o náilon, acrílico ou poliéster, que tanto são usados nas roupas que vestimos, ou produtos para a casa como cortinados ou carpetes, são também eles compostos por derivados do petróleo. Se a economia de mercado funcionar, poderemos assistir a ajustamentos de preços de todos estes produtos, restando-nos saber se tal acontecerá. Os preços do petróleo estão em baixa porque a oferta supera largamente a procura e os stocks são muito elevados. Numa retoma da procura estima-se que também os preços subam, porém, pode haver um espaço de tempo em que sejam aproveitadas as vantagens económicas deste patamar de cotação. Num momento em que dificilmente descortinamos boas noticias e acontecimentos favoráveis às nossas vidas, importa aproveitar as circunstâncias que trazem vantagem ao país e aos agentes económicos. Esta é uma variável que deve ser aproveitada enquanto dura. Mais do que nunca é determinante saber aproveitar estas oportunidades e solidificar um espírito de união, política, económica e social, evitando a todo o custo alimentar um clima de crispação sob pena de criarmos uma ainda maior cortina de fumo que não permite a ninguém ver para além do nevoeiro que já nos tolhe.

 
 
 

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