Quanto custa o Racismo? O Citibank responde
- DRCA

- 4 de nov. de 2020
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Por Jorge Fonseca de Almeida - Membro da Ordem dos Economistas nº 1083
O que as economistas do Citigroup perceberam foi que acabar com o racismo institucional significa alargar significativamente o mercado interno, com todas as vantagens que daí advêm em termos de rendimentos, impostos, qualificação dos recursos humanos e diminuição de conflitos.
Para lá da enorme injustiça social e pessoal que significa. Para lá do imenso sofrimento desnecessário que causa. Para lá do ódio que fomenta entre pessoas e comunidades. Para lá do significativo enfraquecimento da coesão social e nacional que implica. Para lá de todos estes fatores essenciais que nos levam a lutar contra o racismo em todas as suas variantes (institucional, pessoal, etc.) o racismo também tem consequências económicas, provocando atraso e pobreza. Quanto custa o racismo em termos de perdas potenciais do PIB? Quanto custa representa em redução do consumo? Quando pesa negativamente na poupança e no investimento?
Para responder a estas perguntas o Citigroup, um dos maiores grupos financeiros norte-americanos, editou recentemente um estudo produzido pelas suas analistas Dana Peterson (Global Economist do Citi Research) e Catherine L Mann (Global Chief Economist do Citigroup) intitulado "Closing the Racial Inequality Gaps" em que se debruça exclusivamente sobre a comunidade Negra. Nele se analisam detalhadamente as consequências do racismo aos seus diversos níveis e se quantificam os custos que daí advêm para a sociedade.
Vejamos alguns dos principais aspetos considerados:
1. Disparidade salarial entre Negros e Brancos. Se esta não existisse o PIB cresceria 0,35% por ano!
2. Acesso ao crédito à habitação em igualdade de circunstâncias levaria a um aumento da construção e do mercado financeiro.
3. Acesso ao ensino superior em igualdade com os brancos levaria a um acréscimo das competências da economia e aumentos de rendimento e consumo durante toda a vida de milhares de pessoas com os correspondentes benefícios no consumo, impostos, etc.
4. Acesso ao crédito em igualdade para pequenas e médias empresas de empreendedores negros levaria a considerável acréscimo do emprego com os correspondentes benefícios.
Tudo somado são 16 triliões de dólares que a economia americana perde por persistirem práticas racistas na sociedade.
Acesso igual significa para o Citigroup nas mesmas percentagens, ou na mesma proporção. Isto é se 40% dos jovens brancos seguem para o ensino universitário e apenas 10% dos jovens Negros o fazem, existe aqui uma diferença de 30% que deve desaparecer.
De facto num mundo de igualdade de oportunidades estas diferenças não podem existir e são fruto do racismo institucional.
O que as economistas do Citigroup perceberam foi que acabar com o racismo institucional significa alargar significativamente o mercado interno, com todas as vantagens que daí advêm em termos de rendimentos, impostos, qualificação dos recursos humanos e diminuição de conflitos.
Estas diferenças também existem em Portugal e são até muito mais acentuadas – veja-se a ausência quase completa de negros portugueses nas nossas universidades. Curiosamente, ou talvez não, no nosso país nenhuma instituição empresarial, universitária, sindical, política ou outra se debruçou com esta profundidade sobre o tema e o quantificou. Até porque a errada política de recolha de dados nos censos trava parcialmente este conhecimento.
A percentagem de Negros em relação à população total nos Estados Unidos aproxima-se dos 13%. Provavelmente será semelhante à dos Negros residentes em Portugal. Como as disparidades em Portugal são muito maiores, os benefícios de com elas terminarmos poderão ser também maiores. Só o saberemos com rigor através de estudos sérios e com a determinação das organizações antirracistas de continuar a lutar contra o racismo no nosso país.
É tempo de alterarmos esta situação de injustiça social gritante.




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