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Racionamento do gás: causas e consequências

  • Foto do escritor: DRCA
    DRCA
  • 1 de ago. de 2022
  • 3 min de leitura

Por Jorge Fonseca de Almeida - Membro da Ordem dos Economistas nº 1083


A União Europeia pede aos Estados membros uma redução do consumo de gás de 15% para possibilitar aos alemães e polacos um inverno tranquilo e aquecido. Um apelo à solidariedade comunitária, acompanhado de uma ameaça: se não o fizerem voluntariamente o próximo passo será obrigar-vos. O apelo à solidariedade transforma-se assim em ameaça, num simples ultimato pretensamente bem-educado. Desde o século XIX que estamos habituados a ver o nosso governo vergar a estas imposições externas.


Mas porquê que precisamos de reduzir o consumo de gás? Primeiro porque a União Europeia decidiu não abrir o gasoduto North Stream 2 que permitiria abastecer a Europa de gás russo mesmo em tempo de conflito na Ucrânia, depois porque a Europa decretou em conjunto com o mundo anglo-saxónico um conjunto de sanções contra a Rússia que incluíam as peças necessárias para manter o gasoduto que passa pela Ucrânia (North Stream 1) a funcionar. Após longas semanas de hesitação os alemães convenceram os anglo-saxões, canadianos neste caso, a levantar as sanções e a entregar a peça em falta aos russos. Ou seja, vamos ter que reduzir o consumo de gás devido aos erros estratégicos da União Europeia e da Alemanha.


Entretanto, o gasoduto que passa pela Ucrânia voltou a funcionar depois de se terem levantado as sanções para esse tipo de tecnologia. Mas a imposição de redução, aparentemente, mantêm-se.

Mas quais são as consequências da redução de consumo de gás? Quem são os consumidores de gás natural em Portugal? As Famílias consomem 8% do total, as Pequenas empresas 4%, as Indústrias 11% e os grandes consumidores 77% (Fonte: Boletim da Erse de Março de 2022). Ou seja, a margem de poupança entre as famílias e pequenas empresas é bastante reduzida. Mesmo que fosse cortado o acesso ao gás a todas as famílias, apenas conseguiríamos cerca de metade da redução imposta por Bruxelas. Nestas circunstâncias serão as indústrias e os grandes consumidores a ter de reduzir a utilização de gás. Os grandes consumidores, apenas 357 empresas/entidades, são aqueles que consomem mais de 1 milhão de metros cúbicos por ano.


Entre os grandes consumidores estão as empresas produtoras de eletricidade a partir do gás e os grandes complexos industriais. Por aqui se pode ver que a redução do consumo do gás em 15% terá um forte efeito de travão ao desenvolvimento económico português. Setores como a indústria e os transportes serão seriamente afetados. Provavelmente o suficiente para provocar uma nova crise económica e pôr em causa as metas de crescimento do Governo.


A redução do gás implica um racionamento, mais ou menos visível ou discreto, com o Governo a decidir que deve reduzir a utilização e quem poderá continuar a consumir ao mesmo ritmo. Um racionamento direto ou indireto por via dos preços.


Mas este efeito de retração económica não incidirá apenas em Portugal, será sentido por toda a Europa. Por outro lado as exportações portuguesas seguem para esses mercados europeus em contração. O que significa redução das nossas exportações. Novo efeito recessivo sobre a nossa economia.

Uma medida impressionante. Um autêntico tiro de canhão. Estratégia de recuperação portuguesa ao fundo.


Num país, como Portugal, em que todos os anos morrem centenas de pessoas de frio, faz sentido reduzir o consumo de gás para aquecer as casas de alemães e polacos ainda por cima porque eles próprios decidiram não comprar gás à Rússia? Vamos aumentar o nosso número de mortos para que nenhum alemão ou polaco passe desconfortavelmente o inverno. Os mesmos que na crise de 2011 nos viraram as costas e nos impuseram uma austeridade draconiana. É um pedido legítimo este que nos fazem? Não nos parece.


 
 
 

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