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Vacina: um direito ou uma solução?

  • Foto do escritor: DRCA
    DRCA
  • 2 de dez. de 2020
  • 3 min de leitura

Por Madalena Estevão - Membro da Ordem dos Economistas nº 3621


A discussão que se gerou nos últimos dias em torno dos grupos prioritários para receber a vacina, revela bem uma das nossas fragilidades: distinguir conceitos, separar o plano político do científico e racional.


Surgiu uma proposta inicial, apresentada pela DGS, em contexto aparentemente reservado, que colocava o grupo dos idosos na 4ª ou 5ª prioridade, num cenário em que a quantidade de vacinas ainda vai ser muito reduzida (suficiente para menos de 10% da população).


De imediato, assistimos a um desfile de “opiniões” entre o político e o pessoal. O argumento era mais ou menos este – não faz qualquer sentido não começar por proteger os que mais têm sofrido com a pandemia.


E logo nas redes sociais se levantam reações “protejam primeiro os mais idosos” ou “a vida não tem prazo de validade, não nos deixem de fora”.


Enfim, a absoluta confusão.


Em primeiro lugar, a vacina só foi criada para proteger os mais vulneráveis à doença com destaque para o grupo dos idosos. Caso contrário, não seria uma urgência ou mesmo uma necessidade ter uma vacina.


É pura demagogia e torna qualquer discussão pouco séria invocar que é uma prioridade proteger as pessoas que adoecem com Covid-19. Claro que é, sempre foi.


O que motiva toda esta discussão é a tal confusão de conceitos.


A vacina NÃO É um DIREITO, é uma SOLUÇÃO.


E, como tal, deve ser usada com racionalidade, de acordo com critérios científicos que garantam o melhor resultado global (para todos).


E o que tem isto a ver com economia?


Tudo. Na teoria dos rendimentos, aprendemos que quando um recurso/bem é escasso – e a escassez é medida pela disponibilidade vs. procura – deve ser aplicado na atividade onde for mais produtivo, onde acrescentar mais valor para o objetivo final (produção) que se pretende alcançar.


É só aplicar a teoria ao presente desafio. Neste caso, o objetivo /resultado pretendido é conseguir a imunidade de grupo (desta feita, sem risco) no mais curto espaço de tempo, criando um ambiente seguro para todos (incluindo e muito principalmente, os idosos e demais grupos vulneráveis).


Ou seja, devemos focar-nos no conjunto de opções que melhor permite alcançar este objetivo.


Que maximiza o rendimento da quantidade disponível da vacina.


Há duas formas de proteger as pessoas: criar este ambiente seguro sem risco de contágio constante ou vacinando-as.


Só a ciência pode dizer qual destas estratégias gera maior rendimento global e isso depende da que for mais eficaz para cada grupo.


Se a eficácia da vacina for significativamente inferior num grupo, é preferível criar-lhe rapidamente um ambiente seguro, com risco de contágio minimizado, do que administrar-lhe esse bem escasso que pode não o proteger e deixar de ser dado a outro grupo que, por ter uma reação melhor, conseguiria contribuir mais rapidamente para criar o desejado ambiente seguro.


Deixemos que sejam os cientistas a determinar a fórmula que otimiza o rendimento da vacina e aceitemos desapaixonadamente o seu resultado.


A OMS já produziu um roadmap para a tomada de decisão e considera diversos cenários e variáveis (incluindo aquele em que se possa vir a concluir que a vacina tem uma eficácia muito menor nos grupos vulneráveis, tendo como consequência a respetiva redução de prioridade).


O que não fará sentido será dar a vacina aos que mais precisam de ser protegidos mesmo que essa não seja a melhor forma de os proteger, só por motivos políticos ou “éticos”.


Felizmente, os estudos preliminares às três vacinas “mais avançadas” revelam taxas de eficácia semelhantes independentes da idade (resultados ainda muito preliminares, a carecer de maior aprofundamento).


Mas se o contrário vier a verificar-se, muito provavelmente, o critério político vai imperar sobre o científico. Não porque os cidadãos portugueses não respeitam ou não entendem a ciência, mas porque os políticos e os dirigentes públicos não sabem comunicar.

E nisso falhamos de forma recorrente, como se viu neste episódio: muito se falou na proposta polémica, mas nada se ouviu sobre o seu racional, ao que parece, nem foi apresentado. Abriu-se caminho à supremacia da política sobre a ciência e a racionalidade.


Porque não se dedicam os políticos a outra questão, essa sim, de natureza política e muito preocupante, como é a mitigação dos efeitos do movimento “recusa da vacina”. Que tratamento dar às situações em que o cidadão recusa tomar a vacina (e, com a sua atitude, compromete o alcance do objetivo global)? Como equilibrar direitos Constitucionais com interesse coletivo (como é o da salvação de vidas e da economia)?


A ciência fez o seu papel, criou a solução, mas não pode resolver o problema.




 
 
 

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