VENTOS TROIKIANOS
- DRCA

- 17 de jul. de 2023
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Por Filipe José de Oliveira Marques Cortesão - Membro da Ordem dos Economistas nº 15198
Recentemente, bem acolhida nos encantos de Sintra, foi recebida Christine Lagarde no Fórum Anual do Banco Central Europeu.
Contudo, não obstante os mistérios de Sintra, nenhum mistério residiu na mensagem pouco encantadora da Presidente do BCE com a inflação como pano de fundo. Apelou a que os diferentes Governos europeus diminuíssem, sugerindo mesmo que revertessem as medidas de apoio até aqui implementadas, e como pelos visto o Natal não é só quando o homem quer, deixou ainda a mensagem bónus de que as taxas de juro diretoras definidas pelo BCE irão continuar a subir!
Sucintamente a inflação corresponde ao aumento generalizado dos preços dos bens e serviços, sendo medida na área euro pelo Índice Harmonizado de Preços no Consumidor (IHPC), tendo por referência um “cabaz” de artigos.
Poderíamos dizer que nada de estranho há até aqui mas estaríamos a invalidar um forte enviesamento nas políticas adotadas que não tem outro rosto senão mesmo Christine Lagarde e que nos trazem efetivamente à memória algo que não é novo para nós, em particular para nós portugueses, e que faz deste nada de novo, algo paradoxalmente estranho.
Senão vejamos, de 2011 a 2019 o FMI contou como Presidente e Diretora-Geral, nada mais nada menos que Christine Lagarde, algures nesse mesmo espaço temporal nós contámos com a troika, com todo esse período negro para os portugueses, com a sobretaxa de 3,5%, subida do desemprego, falência de empresas, congelamento de carreiras e graves retrocessos salariais. Foi também esta senhora, na sua passagem governativa, protagonista de reformas liberais, de mercantilização do mercado de trabalho e, diria eu, a sua especialidade, planos de austeridade nos serviços públicos. Alguma semelhança é pura coincidência.
Pelas mãos de Christine Lagarde temos agora uma Europa a dois tempos. Se antes de integrarmos a UE contávamos com mecanismos económicos como a política orçamental e a política monetária, aquando da entrada na UE e com a adesão ao Euro a política monetária foi delegada no BCE, mantemos a nossa capacidade de gestão orçamental mas não só, também a UE tem essa capacidade, via políticas comunitárias, via fundos estratégicos de apoio às diferentes economias dos Estados-membro que a integram.
A inflação é de facto um fenómeno complexo e pode ter origem em várias causas, contudo, separada ou conjuntamente, elas acabam por produzir um efeito sinérgico cujo resultado é difícil de isolar, contribuindo para ela de um modo geral as pressões da procura (o caso do mercado imobiliário), subida de custos de produção (o aumento da energia e gás), pressões nas cadeias de valor (a disrupção provocada no transporte marítimo pelas sanções à Rússia, em virtude da guerra), inércia inflacionária e expectativas de inflação fortemente ancoradas (como tem sido reflexo da resposta dos mercados financeiros às subidas das taxas de juro). Rapidamente observamos que boa parte das causas, e estas poder-se-ão dividir em subcausas, tem um forte elemento de fundo presente, ele está patente nas assimetrias que vigoram dentro da própria UE, designadamente ao nível do rendimento das famílias, habitação condigna, acesso à educação e cultura, como também no mercado de trabalho (taxas de emprego e de desemprego), investigação e inovação, e cada vez mais na eficiência energética, neste último, sobretudo a capacidade de endividamento e de negociação com parceiros que se encontrem a montante na cadeia de valor.
A Europa está deste modo refém de políticas associais, economicistas, numa lógica liberal que tem vindo a ser desconstruída na UE, sobretudo com o impacto da Covid-19, ao recuperar o debate e deixando no ar a necessidade de repensar novas métricas económicas para os Estados-membro que contemplem outros pressupostos e ponderadores nos quais se reflitam a mitigação das assimetrias identificadas no último relatório, Regional Trends for Growth and Convergence in the European Union. Coragem.
A UE marca passo, encontramos uma Presidente do BCE a querer exibir galões, provocando uma marcha a dois tempos, as políticas europeias devem estar alinhadas entre si, verificamos uma proeminência da política monetária definida cegamente a régua e esquadro, que embate nas assimetrias regionais, ignorando como as políticas orçamentais poderão acomodar uma política comunitária cuja resposta à inflação tem sido multivariada e que carece claramente de uma direção uníssona, capaz de reivindicar posições políticas e negociar solidamente estratégias económicas a um só bloco, a Comunidade.
Fechemos portas, janelas e corramos persianas a esses ventos troikianos que persistem em soprar, exige-se mais Europa, exige-se mais União!





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