É prioritário investir na actividade física e desportiva da juventude
- DRCA

- 12 de jun. de 2020
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Por Fernando Tenreiro - Membro da Ordem dos Economistas nº 498
O desporto perdeu os primeiros fundos da Comunidade Económica Europeia e será natural que em 2020 o comportamento de política pública desportiva se mantenha. As razões da exclusão do financiamento comunitário ao desporto deveram-se primeiro à incapacidade de argumentação de política desportiva e hoje são fundamentalmente de origem ideológica.
A razão inicial fez escola e insinuou-se nas mais de 3 décadas seguintes nos argumentos da política pública em relação ao desporto. Segundo estas posturas, dado que o desporto na sua maior parte não é economicamente transacionável, justificou-se apenas apoiar o megaevento do campeonato europeu organizado em 2004 por via dos impactos económicos no turismo e, também, se aceita atribuir os lucros das apostas desportivas na internet, na maior parte, às modalidades que as geram. Simultaneamente esses lucros foram partilhados mais uma vez com o turismo, entre outros sectores. A diferença entre o turismo, que se enriquece no curto prazo com a população dos outros países, e o desporto é que a juventude é portuguesa e é ela que vai produzir todo o futuro nacional. Deixar de investir no desporto nacional, beneficiando o curto prazo do turismo foi um acto de política pública da Assembleia da República.
Ao longo das décadas o distanciamento entre a necessidade de financiamento público da prática física e desportiva da juventude e o satisfeito para responder às necessidades prementes da população manteve o défice face aos indicadores médios de bem-estar desportivo europeu.
Portugal não investe em desporto mais fundos da União Europeia e mais orçamento público porque lhe falta querer demonstrar a relevância do desporto e da juventude que são os seus. Ao longo das décadas afirmou-se o “Menos Estado, Melhor Estado” que aplicado com rigor significou “Pior Desporto e as condições da falência desportiva, económica e social do sector”.
A disciplina do desporto não é o português, a matemática, o inglês, a filosofia, a física, a química, a engenharia, a psicologia ou a economia. O desporto é o desenvolvimento óptimo do corpo e da mente, através da prática regular e intensa de actividades físicas e desportivas, gerando benefícios que suportam todas as áreas do conhecimento acima referidas, benefícios esses que alavancam a aprendizagem familiar, escolar, comunitária, profissional e social e se repercutem positivamente ao longo da vida do indivíduo.
As federações são as organizações sociais que aprofundam o aprendido e exercitado na educação física através da produção de qualidade das actividades desportivas dando-lhes um sentido de qualidade (fazer bem), de produtividade (produção rentável), de competitividade (princípio de afirmação do indivíduo e grupo), de aceitação do outro (saber ganhar e saber perder), etc.
O jovem que tem uma equipa de um clube, que treina regularmente todas as semanas, ao longo dos anos, que compete a nível local, a seguir no regional, depois no nacional e chega ao internacional, tem um capital de produtividade humana e social que, por exemplo, chega à universidade com a cabeça e o corpo formatados para níveis de produtividade escolar que outros colegas com percursos menos ricos desportivamente raramente alcançam. Não admirará que este jovem com Mundo obtido através do desporto se torne um líder empresarial ou social e uma referência nacional e internacional.
Está demonstrado cientificamente que o desporto gera o desenvolvimento pleno do corpo e da mente desde os primeiros anos de vida e a saúde física e mental ao longo de toda a vida. A ciência demonstra que os benefícios da prática desportiva intensa e regular criam um retorno mais do que proporcional ao investimento público efectuado e que se observam na saúde, na educação, na economia, na segurança social, no turismo, nos negócios estrangeiros e nas relações entre as nações e os países.
Até 2050/2060 a população portuguesa diminuirá 2 milhões de habitantes. Nos próximos 30 anos os jovens e os adultos diminuirão e os idosos aumentarão. A população que hoje tem menos de 29 anos e as gerações que nascerão entretanto representarão mais de 60% da população portuguesa nas próximas 3 décadas.
Portugal é caso único europeu de incompreensão do desporto moderno e contumaz nas más políticas públicas assumidas por pessoas, partidos, gabinetes e órgãos contrários à pro-actividade em matéria de política pública desportiva.
Apesar da demonstração científica dos imensos benefícios do desporto o Modelo de Desporto Português continua a fazer sua, a máxima “Menos Estado, Melhor Estado”. Os partidos políticos, a Assembleia da República e os governos, para além dos sectores de convicções ideológicas afins, são a razão fulcral das limitações impostas ao bem-estar da juventude portuguesa e um desafio tremendo que o défice populacional certamente agravará.
No domínio do desporto para a população portuguesa, a meta de 2050/2060 exige claramente a reforma do Modelo de Desporto Português na legislatura que começou em 2019. Até ao momento nada sobressaltou a política pública e a praxis partidária nacional.
Seria bom que António Costa Silva
https://www.publico.pt/2020/04/21/opiniao/opiniao/mundo-desmoronado-1913106, para “gerar uma sociedade mais justa, mais humana, com mais equilíbrio na distribuição da riqueza, maior proteção dos mais vulneráveis, mais tempo para a família, mais ética nos negócios, menor dominância do lucro e da ganância, mais atenção às pessoas e às comunidades, menor destruição ambiental e governos mais interventivos e mais reguladores na economia" tivesse o desporto da juventude portuguesa na imperiosa e justa conta.
Face ao exposto, no próximo artigo delinearei alternativas de política pública desportiva.





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